quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Brasas

Em quais respostas eu devo confiar?
Sem intuitivamente ficar cego, louco...
Em que curva eu devo me despejar,
e derramar aquilo que mais puro é meu?
Graus, cantos e fórmulas...
Não me servem, não me atendem,
de maneira que o chão desabe,
e as brasas queimem,
mais e mais,
Num rodopio incandescente e em negativo.
Brasas que me sorvam e derretam,
meu coração e minha pálpebras.
Já é tarde.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Coisas que eu sei

Coisas que eu sei, Que não voltariam para me abraçar, e escalar meus desejos. Olhar meus desenhos, tu diz: que lindos! Numa profusão infinita de ilusão. Coisas que eu sei, que faltam no íntimo espeço entre o mar e minha pele, entre o sol inebriante do teu sorriso, que me assola nas noites esquecidas. Coisas que esqueci, de achar, de ver, de sorrir... Tua presença inexata ao fim da rua, Calor devagar, longo e pálido. Coisas suas, até o fim. Vitor Vieira

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Às 23:34...

Este céu nublado, É como para me barrar, Neste sonho tão promíscuo, Que eu quero me entregar. Desejo ver por entre as nuvens, O rosto de quem luto para esquecer, Mas não vejo, não posso, Dele me desfazer. Preciso que alguém venha, E me tire deste lugar, Tão calmo, tão solto, Venha, que não tema em me amar. Esquece teu corpo ao meu lado, E esvazia tua mente inteira, Por que sozinho sei que estou, Deitado mesmo que não queira. Sofrer este frio, Que sopra longe, cá no meu ouvido, Vivendo esta noite cheia, De mentira: uma paixão. Vitor Vieira

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pecado

Cai em pecado,
Grude pecado,
Aonde vou,
Aonde passo,
Sempre que falo.

Das fendas impuras,
Retirei orgulhosos pombos,
Cheios de penas vivas,
Doentias,
Asas que não voam.

Por isso, cai em pecado,
Grude pecado,
De falar além de mim,
Além do além,
Sem piedade.

Visceral,
Costume,
E preguiça.
Vida que não ferve,
Onde padeço,
Por culpa,
Tão só,
Minha.

Faltando pedaços,
De torpes e ínfimas ilusões,
Que poderiam aqui pairar,
Sobre minhas paciências,
Já tão desgastadas.

Juro,
Emocionadamente juro,
Não queria fazê-lo,
Queria só tê-lo,
Comedido,
Pecado de ser.

Alguém.

outra vez

Por mais que tentasse, não conseguia extinguir aquela angústia encarnada. Que teria feito? Não, essa não é a pergunta verdadeira. O que fazia ali? talvez.
Decide que a solução estava não tão distante de onde morava. A secular alcova de cansados e perdidos. Estava mentindo, por isso precisava dela, ou melhor, Dele, o Pai do nascer ao fim. Caminho fácil que surpreende por fazer suar, respirar. Se encontrasse suas soluções no caminho, sorriria e voltaria para casa ou para céu. Não encontrou. Continuou. Sempre observou as crianças do caminho, as pedras do caminho, os galhos do caminho, os cachorros do caminho. Fazia isso porque sentia que missão não estava no fim, mas no meio.

domingo, 12 de junho de 2011

pseudo vida

A quem pertence a verdadeira culpa? Serão os princípios deterministas de Taine ou a indômita e insensível força da pura mal caratice? Não se sabe. Contudo, o conflito “psicotrágico” que sucedeu aquela descoberta infeliz, mas inevitável, proporcionou um outro descobrimento: o mundo vil e luxurioso da ilusão amorosa.
Pesquisas feitas por estudiosos indiscretos mostraram que é da natureza humana: trair, enganar, mentir e buscar sempre o caminho mais fácil. E isto pode ser comprovado visceralmente por indivíduos ingênuos e naturalmente retardados. Para que isso ocorra, não se precisa de muito, apenas uma bela moça, de longos cabelos mechados, seios fartos e um discreto sorriso. Uma malícia. Os homens que realmente usufruem do bálsamo feminino são os indivíduos mais atingidos por tal monumento vivo e atroz. Estas meras presas não tem chance, quando a fêmea em questão, tem o desejo espontâneo em fazer o mal. Leonardo Leal, 23 anos, é um exemplo claro dessa mazela. Em 03 de abril de 2009, conheceu Natália, mulher com características já citadas. Entre os dois houve um relacionamento. Início da utopia.
Este casal gozou de muitas atividades deliciosas, comuns a casais amantes e românticos. Passeios, presentes e restaurantes caros, ou seja, muito dinheiro gasto por Leonardo, obviamente, no intuito de agradar seu “affair”. Entretanto, a beleza dessa situação não poderia durar. Justamente no ápice da paixão de Leonardo, momento em que nada mais importa, a luz rosada que o encobria turvou-se e transformou-se em breu. Noite de sábado, balada psicodélica, duas taças na mão e uma aliança no bolso. Um lapso: uma meretriz encrustada em braços indecentes de outrem.
A conclusão que se pode ter é um rapaz destruído, de olhar perplexo e encharcado, uma revolução “psicotrágica” desenrola-se e ganha força em situações come estas. Em casos como este, faz-se necessário a presença constante de antidepressivos e soníferos. De fato, a desilusão desnorteada e quase personificada é uma companhia triste, de braços cruzados. Como renascer e matar são opções pouco adequadas, esquecer é a saída mais eficaz, ainda que ilusória.

domingo, 24 de abril de 2011

Entre borboletas e pedrinhas – cena final

(tudo escuro. Suavemente, um foco de luz surge mostrando o menino caminhando para o lado esquerdo do palco, naturalmente. Outro foco de luz surge mostrando a menina parada. Alguns segundos depois ela olha para o menino).
Menina – Você!
(O menino a olha, muda de direção e continua andando a esmo)
Menina – Já voltou? Como foi lá?
Menino – (com desinteresse) É. Foi.
Menina – Quando você vai de novo?
Menino – Não sei.
Menina – (sem jeito) Eu não consegui... Eu caí, você viu?
Menino - É. Eu vi.
Menina – Eu vou tentar de nova, tá?
(Ela olha e depois de alguns instantes anda em sua direção). A cor da luz muda enquanto ela anda com cuidado. Ela cai).
Menino – O que houve? Caiu de novo? Por que não levanta?
Menina – (com raiva) Você não entende? (fica de joelhos) Eu não posso!
Menino – Sua mãe te bateu?
Menina – Sim.
Menino – Você chorou?
Menina – Sim.
Menino – então porque não vem?
Menina – Já disse. Estou com muito calor!
Menino – Eu não tenho calor.
Menina – Onde você está?
Menino – Em um lugar bom.
Menina – Eu posso ir?
Menino – Venha.
(A garota levanta-se e vai caminhando na direção dele). Quando chega bem próxima, vai tocá-lo, tropeça e apoia-se nele. (Ele a segura, mas ela fica furiosa)
Menina – Não existe nenhuma ponte entre mim e você! Seu mentiroso! Agora não tenho mais calor, tenho frio! Muito frio!
Menino – (perplexo) Você quer um raio de sol?
Menina – (irritada) não, eu quero você!
Menino – Você quer uma maçã?
Menina – Não. ( empurra-o) Eu quero dormir. Já estou cansada! Não me perturbe mais!
(Ela afasta-se)
Menino – Você irá comigo.
(Ele vai até ela e pega-a a mão. Passam alguns instantes e os dois olham para as mãos juntas)
Menina – Você vai me levar?
Menino – Sim, nós vamos juntos. Meu pai nos trará um grande bolo. Você quer?
Menina – Você me dará o seu pedaço?
Menino – Se você quiser, eu o darei.
(Eles caminham. A menina para.)
Menina – Mamãe não me deixa ir.
Menino – Papai vai deixar.
Menina – eu vou pra casa.
Menino – Vamos sair daqui?
Menina – eu voe embora. (olha para o outro lado)
Menino – Você não deve ir agora.
Menina – Seu louco! Mamãe já me chamou!
Menino – Amanhã eu volto aqui.
Menina – Você volta?
Menino – Não.
Menina – Por quê?
Menino – Eu vou embora.
Menina – Eu vou com você.
Menino – Não.
Menina – (gritando com raiva) Quem você pensa que é? Mamãe vai comigo!
Menino – (já saindo de cena) Adeus!
Menina – posso ir com você?
Menino – Se você conseguir de desenhar borboletas no ar, você pode.
(A menina olha suas mãos e começa a chorar)

FIM

Violão

Agradeceu ao Patrício e partiu com o pesado saco de batatas nas costas. Eram onze horas da manhã de domingo e a feira estava já quase no fim. Alguns mascates recolhiam sua mercadoria para o intervalo do almoço. Cristóvão passava entre os comerciantes, andando a passos ritmados, com o fardo de batatas. A face estava crispada devido à intensa luz do sol, a blusa de algodão aberta até a metade, molhada de suor. Usava uma calça fole também de algodão e sandálias alpargatas, sujas de terra. Sua figura formava um tipo humano grotesco, que incandescia ao sol do sertão nordestino.
Quando passava em frente a uma bodega, um dos homens ali sentados chamaram-no.
- Ei. Rapaz! Ei, Tovim! Vem cá vem!
Ele foi. Chegou do portal, largou o saco entre as pernas, e enxugou o suor da testa.
- Como é que tu tá, macho? Eita tá suado! Senta aí e bebe uma com a gente!
- Ô seu Marcelo, num carece não. Brigado, mas eu tenho de ir mim embora logo. O seu Mundico disse que precisa dessas batatas logo. Ele disse que tavam procurando muita batata por lá e já tinha acabado tudo. Aí ele me mandô vir comprar aqui na feira.
- Sim, sim o seu Mundico. Como é que ele tá?
- Tá bom.
- Hum. Num quer mesmo não? Perguntou seu Marcelo, levantando um copo cheio de aguardente.
- Num quero não.
Cristóvão pegou o asco novamente sobre o ombro. Virou-se e sem esperar, estouraram gargalhadas. Os homens riam. Ele olhou para seu Marcelo.
- Que diabos é isso homem? Perguntou seu Marcelo, lambuzando-se de cachaça.
- Tu te borraste todo, foi? Tá todo sujo aí atrás.
Novamente estouraram gargalhadas escandalosas.
Cristovão saiu do bar quase correndo, derrubou algumas batatas e recolheu-as impaciente.
- Mas que diacho de vida! Que troço foi esse?
A vergonha toma-lhe o controle e transforma-se em cólera. Caminhou até o ponto de ônibus onde havia apenas um jovem branco sentado em um banco. Cristóvão fitou-o e não o reconheceu. Aprumou o saco entre as pernas, tal como fez no bar. Observou o horizonte fumegante que iria percorrer a pé, porque não iria de ônibus, “mas que diacho”, respirou fundo, recolheu o saco e recolocou-o sobre o ombro e partiu. O jovem sentado observou-o deixar a parada castigada pelo o sol. Deu um sorrisinho cretino.
- Idiota!
Chegou uma da tarde na casa de seu Mundico. Cruzou o quintal afugentando as galinhas. Preto, o cachorro vira-lata latiu quando o avistou. Cristóvão notou uma agitação dentro da casa. Era seu Mundico. Largou o fardo sobre o alpendre e apoiou-se numa coluna. Deu longo sorriso.
- Mas que maçada foi essa hein Cristóvão? Já é quase duas, que é que tu tava fazendo?
Seu Mundico foi até o saco de batatas e espiou algumas delas.
- Desgraça! Gritou seu Mundico, furioso. Entrou em casa.
Dona Maria apareceu assustada com a algazarra do homem.
- Que foi Cristóvão? Que foi?
- Não, dona Maria, nada não.
A mulher olhou para ele e para o saco esfolado em cima do alpendre.
- Vixe! Balançou negativamente a cabeça e olhou para Cristóvão.
- Vai tomar um banho, vai.
Banhou-se, vestiu uma roupa limpa e foi para a cozinha almoçar. Um prato já o esperava por ele em cima do balcão, Dona Maria preparava um café no fogão. Ele sentou-se e começou a comer.
- Que foi que houve Cristóvão?
- Nem eu sei dona Mariinha, nem eu sei...
Seu Mundico entrou na cozinha. Parou no balcão, olhou para Cristóvão, que retribuiu assustado, e saiu. Voltou cinco minutos depois contando algumas cédulas de dinheiro na mão. Parou no mesmo lugar de antes. Olhando para o dinheiro, disse:
- Pega!
Cristóvão olhou desconfiado.
- PEGA! Disse novamente, ríspido.
Cristóvão aceitou o dinheiro. Seu Mundico guardou o restante no bolso e foi embora. Depois de um tempo o rapaz falou:
- Agora eu tenho o que tava faltando.
- É o que hein? Perguntou a senhora pouco interessada.
- Não, é que agora eu tenho o tanto que preciso pra comprar.
- Comprar o que, menino?
- Comprar meu violão.
A mulher olhou-o de soslaio e deu um sorrisinho.
- E tu queres é isso é?
- É que eu gosto!
- E tu sabes tocar?
- Não ainda não. Mas eu aprendo. Só que pra isso eu preciso ter né? Eu tô juntando dinheiro desde que o seu Mundico começou a me pagar pelos serviços. Faz tempo que eu queria um. Eu lembro que o meu pai tinha um, e ele tocava pra mim e pra mamãe. Era tão bonito.
Voltou a comer. Dona Maria olhava-o. Uma lágrima ficara presa e foi aos poucos se desprendendo. “Oh meu Deus. Já faz 28 anos. Ele sofreu tanto, tomara que consiga esse violão, ele merece.”
- Eu vou pedir pro seu Mundico comprar. O seu Tété da dona Carminha tem um. Ele me mostro uma vez, faz tempo, e ele disse que se eu quisesse, ele me vendia.
- Ah tá certo. Disse dona Maria.
A noite foi longa para Cristóvão, a expectativa dele faiscava pelos olhos.
- Até que enfim! Eu vou tê meu violão.
Dormiu sorrindo.
No dia seguinte, Cristóvão segurava um pequeno embrulho com dinheiro. Estava sentado no alpendre da casa, movimentava o pé excitado. Nem tinha tomado banho, tamanha era sua impaciência. Esperou a saída do padrinho. Quando seu Mundico saía da casa, Cristóvão o abordou:
- Padrinho...
- Diz.
- O sinhô pode fazer um negócio pra mim?
- O que é que tu queres?
- Eu queria que o sinhô fosse até o seu Tété do açougue...
- Sim, eu sei quem é. Que tem?
- Ele tem um violão, e eu queria que o sinhô comprasse pra mim.
Disse-lhe estendendo o pacote de dinheiro.
- Eu juntei.
- Tá bom.
Foi embora.
O dia passou. Eram 6 horas da tardinha. O carro parou fazendo barulho. Preto ladrou assustado. Cristóvão estava sentado a mesa com dona Maria na cozinha. Parou o que estava fazendo quando percebeu a chegada do padrinho. Correu para a sala. Seu Mundico chegara embriagado e estava caído no sofá.
- Tá no carro é seu Mundico?
- Tá o quê, menino? Vai fazer garapa pra mim, vai!
Não disse palavra. Voltou para a cozinha como um espírito. Dona Maria que antes sorria, ficou pálida.
- Vai terminar de cortar as batatas não, Cristóvão?
- Vô Mariinha. Mas eu vô cortar é na sala, vô cortar na sala.
E foi.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Amiga

Amiga,
Escuta-me,
E fala ao meu ouvido,
Sentindo o mel amante,
Que destilo em teu seio,
Acovardado,
Mas meu todo meu.

Espero que não esqueça,
Que hoje sou,
Um verdadeiro amor,
Daqueles de criança,
Um beijo sem esforço,
E um olhar singelo e amoroso,
Aquele,
Que eu sempre quero dar.

Seguro tua mão escassa,
Diluída ao sabor do vento,
Que não refresca o meu intento,
De limpar teus lábios,
Com os meus já fadados,
De não falar em nada,
Sorrindo para ti,
Em um espelho, só espelho.

Percebo que já se foi,
Não sei que horas,
Contam meses,
Um dia, doe anos,
Mas não morreste para mim,
Diva uma sem destino.

Milagre mesmo,
Foi ter te contraído,
E expulsado pelo intimo,
Desejo de sofrer,
Mágoa ultrapassada,
Forjada,
Mas eu te amo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Menina

Faltou-me amor,
Para ler seus olhos,
Singelas flores,
Achadas no tumulto,
Da alcova de perdidos.

O que procura,
Menina da igreja?
Será que teus amigos,
Estes por aí,
Esqueceram de te conhecer?

Que Deus te proteja,
Menina da igreja,
Das setas diversas,
Infames feridas.

Se te incomoda essa dureza,
Deita sem remorso,
Nesse leito já fadado,
E descansa tua vida,
Um sossego de menina.

Esqueça a pujança,
Do vazio desse espaço,
Que tu vives bem feliz,
É um lago, longo lago.

Não te afogues,
Não te jogues,
Menina da igreja,
Deus te espera bem feliz,
Ao seu lado,
Um bem amado.

Vitor Vieira

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

poesia dadaísta de um dos mundos

A guerra que toma,
Devastação,
Na missão de paz,
A operação ocorre.

Oitocentos homens,
Que cercaram,
Ontem na guerra,
Uma aposentada.
Resistência.

Para onde centenas,
Ele foi atingido!
Das ruas,
Na rua.

E assustou,
Num tiroteio,
Revidaram,
O soldado.

A bordo de 30,
Atiraram,
Agora,
Cinco deles,
Uma menina,
Também foi.

Vitor Vieira

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

À tarde

Menino dorme,
Dorme no sol quente,
Pra ficar vivo,
E beijar mais, tente.

E esqueça-se da lida,
Deixada no mormaço,
Secando intermitente,
No varal já decadente.

Sonhe mais alto,
Tirando a roupa seca,
Grudada pelo corpo,
Suado e amargo sal.

Criando aquele antro,
Um tanto maternal,
Aquecido entre os braços,
Dos ramos do quintal.

Brinque com as sombras,
Criadas do apelo,
De menino do sol quente,
De menino já dormente.

Vitor Vieira

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mais uma vez

É mais uma noite em claro,
Que o sono vem torto,
E a noite impiedosa,
Sem calma, sonho, uma tortura.

Gotas de sangue meu,
Flutuam pelo ar a minha volta,
Raiva desescrupulada,
Que horas difíceis, meu Deus!

São anos a menos,
Nessas horas famintas,
São madeichas alvas,
Numa calvice antecipada.

Fico a pensar nas pessoas,
Que um dia estarei longe,
Velhos, vivas, alegres e indecisos,
Só por hoje, que pena, só por hoje.

Perdoem-me irmãos,
Pela falta de esperança,
Sei que um dia fui,
Um pouco mais criança.

Ah se assim fosse,
Ah se fosse assim.

Vitor Vieira

domingo, 12 de setembro de 2010

Entre borboletas e pedrinhas – 2ª parte

O palco está parcialmente às escuras. Um feixe de luz do lado direito do palco acompanha a menina. Ela anda sorrateiramente, como se estivesse tentando esconder-se de alguém. Subitamente, ela começa a dar unhadas no ar, com uma intensa ira. O garoto entra em cena observando-a, perplexo com a sua atitude. Aproxima-se dela.
Menino - O que você está fazendo?
Menina – Você não sabe? Estou brincando!
Menino – Não entendo.
Menina – Não? Estou com calor. Muito calor.
Menino – Eu posso ajudar?
Menina – Não. Mamãe me deu isto.
Tira um leque que estava escondido em sua roupa e começa a abanar-se.
Menino - O que é isso?
Menina – (com indiferença) O que mamãe me deu.
A menina anda alguns passos com um sorriso de contentamento. Depois olha para o garoto.
Menina – (desdenhosa) Você não está com calor?
Menino – Eu não preciso sentir calor. Estou em um lugar onde isso não existe. Se quiser, pode vir comigo. Aqui está tão bom...
A menina o observa com desconfiança e vai andando lentamente na direção dele. Ao chegar bem perto, o abraça. Ela larga-o e dá um grito de fúria.
Menina – Eu ainda estou com calor. Deixe de loucura! Aqui está fervendo.
Ela volta a abanar-se com violência.
Menino – Está com raiva?
Menina – (zombeteira) Eu não preciso sentir raiva.
Menino – (sorrindo) Eu também não!
Menina – (em tom de ameaça) mamãe me disse que todos sentem raiva. Então você sente também.
Menino – eu tenho amigos.
Menina – (gritando) Ah, é ? Eu também te...
Ela olha-o e fica em silêncio por alguns segundos.
Menina – (rindo maldosamente) Você também não tem! E você não pode desenhar amigos porque assim, eles seriam amigos imaginários e isso todo mundo tem!
Menino - Eu não preciso fazer isso, eu tenho amigos de verdade! Você também tem, eu já sei.
A menina alegra-se e entristece-se, começando então a chorar. O garoto comove-se com ela e a observa com pena.
Menino – Papai me disse que devo abraçá-la.
A menina o olha com o rosto úmido de lágrimas e ela própria pula nele, agarrando-o.
Menina – Eu quero ficar com você.
Menino – Você já na tem um lar?
Menina – (com inocência) eu quero sentir calor.
Menino – Então vamos.
Os dois caminham para o lado esquerdo do palco. No percurso o rosto da menina vai mudando. Ela sai contente, fica séria, aparenta tristeza e em seguida raiva. Ao chegar nesse ponto, volta todo o percurso. O garoto chega na extremidade e olha para trás, vendo que a garota não o acompanhou.
Menino – (gritando como se ela estivesse muito longe) Eu tenho que te mostrar as borboletas! Vamos atravesse!
A menina o olha, desgostosa.
Menina – Atravessar o quê?
Menino – Depressa!
Ela o olha com desconfiança e vai ao seu encontro. Após alguns passos, ela fica com medo. Olha para o chão como se ali houvesse um abismo.Dá mais alguns passos, trêmula, e cai.
Menino – Vamos! Rápido! Atravesse!
Enquanto ele a chama, o foco de luz vai enfraquecendo, até restar apenas o foco de luz sobre a menina. Ela está imobilizada. Ainda é possível ouvir os chamados do garoto. As luzes apagam e os chamados cessam.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Aquela mulher

Eram seus lábios,
De praça, de rua, de graça,
Em seu rosto,
Cansado, fachado e atado.

Onde cores mais vivas,
Brincavam em seu ósculo,
Como anjos aos seus pés,
Dois, mais um de viés.

Criados no gargalo da cerveja,
Esquecidos pela casa fria,
Que era sua,
Só sua.

Mas não estava cá,
Estava contigo,
Um carma vivo,
Focado a tu levar.

Em seus braços cruzados,
Amarrados a um de seus vícios,
Branco, quente e sujo,
Esparso pelo mundo.

Mundo constante,
Mundo infame,
Tu seguiria,
Mais uma vez, de volta.

Num eco mudo, surdo, louco,
Caco, fraco, opaco,
Leve, livre, lento,
Batom, batom, batom,
Tu usaria,
E seriam,
Seus lábios.

Vitor Vieira

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Poesia dadaísta de um detento

Foi o amor da esposa,
Historias de amor,
O tempo passa,
Meu filho.

A primeira perda,
Droga,
Entre quatro,
Sair daqui.

Solidão,
De um colega,
Réu,
A esperança.

Meses,
A falar,
O jovem,
Sentença,
Carrega.

Vitor Vieira

ps: Obrigado Tzara

Para uma nipônica

Eu não tenho vontade de te beijar agora,
Aqui,
Agora.
Eu te olho,
Não quero te beijar.
Aliso seus cabelos,
Eu gosto disso,
Aliso seus cabelos,
Friso seus olhos,
Agora as sobrancelhas,
Sinto vergonha,
Mas eu te quero.
Muito.
Mas eu não quero te beijar agora,
Não agora.
Por que não basta,
Agora,
Aqui,
Te olhando,
Não basta.
Pra mim,
Repito,
Não basta.

Eu te quero,
Quero muito,
Repetido assim mesmo,
Repetir e repetir,
Por que agora?
Te quero lá,
Lá na cama,
Comigo,
Desculpa,
Mas é isso,
Você,
Completa,
Insegura,
Só pra mim,
Só em mim,
Dentro de mim,
Eu em você,
Quero você.

E isso,
É uma vela,
É a chama da vela,
Que crepita,
Oscila,
Vacila,
Insegura,
Como você,
É você,
Em mim.

Puxa.
O que é isso,
Deus!
Eu não te amo,
Nem você,
Mas eu te quero,
Não seu corpo,
Mas você,
Uma criança,
Como eu,
Querendo,
Beijando,
Não agora,
Só com você.

De novo,
Desculpa pela chatice,
Que droga!
Por que isso?
Por que você?
Sua má!
Rosa de espinhos,
Sim,
De espinhos,
Que eu adoro,
Que eu amo,
Eu amo?
Me ferir,
Em você,
Japonesa.

Vitor Vieira

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Foco

Olhos de vitrine,
Sem pudor, sem crime,
Que só perdem,
E perseguem,
A toda uma vida.

Olhos que não pedem,
Que recebem,
E divergem,
Do seu foco.

Olhos loucos,
Que não são poucos,
E consomem,
Por dentro o homem,
Inteiro homem.

Olhos em praças,
Nas desgraças,
Dessa vida,
Vitrinada e amada.

Olhos que distorcem,
Que contorcem,
E não podem,
Comer-me.

Por que estou,
Do outro lado,
Da retina,
Desse osculo,
Espelhado.

E daqui eu posso ver,
Que eu,
Que você,
Somos olhos de vitrine.

Vitor Vieira.

Companhia

Menino na praia,
De pipa na mão,
Com asas amarelas,
Sem blusa, calção.

Entre nuvens ela voa,
E esconde-esconde faz
Com o menino na praia,
Ele e ela em paz.

De repente um susto,
Ela se foi?
Não ela se vai,
Com o menino na praia.

E ele corre,
E ele pula,
Com a pipa na mão,
Ele dança,
É pura emoção.

O menino na praia,
Olha o mar,
A pipa no céu,
Ela vai se soltar.

O menino na praia,
Dentro do mar,
Lá se vai ela,
Lenta a chorar.

De onda, em onda,
De vento em brisa,
O menino fica,
E a pipa grita:
Menino! Menino!

Coitada da pipa,
Que rumo terá?
Se o menino na praia,
Lá vai ficar!?

E a pipa se foi,
Triste a sondar,
Os sonhos perdidos,
Do grande além mar.

E a noite se chega,
Com lua e estrela,
E a pipa pergunta:
Cadê meu menino?!

Um dia a mais,
E um mês atrás,
A pipa estava,
Sozinha, sem lar.

Até que um dia,
Cansada da vida,
A pipa dizia:
É o fim, acabou!

E de novo, e de novo,
Lá foi a pipa,
Sozinha e bonita,
O infinito buscar.

Buscou, buscou,
Até que encontrou,
Um menino na praia,
Com quem quis falar.

- Menino, ei, menino!
Chamou a pipa
-Menino, ei, menino!
Eu vim te pegar!

E o menino pegou,
E ela falou,
-Que saudades eu tive!
Do menino e da pipa.

Vitor Vieira

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Domingo

Sacolas voando,
Pelos ceús de palmeira,
Um branco no anil,
Celeste urbano mar.

Lôro gritando,
Pia lavada,
Uma moça deitada,
Domingo de sorte,
Domingo é vermelho?
Não,
Domingo é amarelo.

Crianças zunindo,
Viagem ao léu,
Quando acaba?
Não sei.
Joelho ralado,
Rede vazia,
Descanso fadado.

Pés sem chinelo,
Perto do café,
Maria lá estava.
Fogo aceso,
Caneca de chá,
Cidreira ou canela?
Que tal fubá?

Poeira sobre a cama
e sobre o sofá,
varais balançando,
sóis de danar.
Um peixe no aquário,
Um, dois, seco.

Garoto e caneta,
Espinhas no rosto,
Preguiças nas mãos.
Uns pintos latindo,
Cachorro bota ovo?
Pisos lá em cima,
Em cima do sobrado.

Outro saco voando,
Tios indo embora,
É domingo,
De pedra,suco e bola.