quinta-feira, 21 de abril de 2011

Amiga

Amiga,
Escuta-me,
E fala ao meu ouvido,
Sentindo o mel amante,
Que destilo em teu seio,
Acovardado,
Mas meu todo meu.

Espero que não esqueça,
Que hoje sou,
Um verdadeiro amor,
Daqueles de criança,
Um beijo sem esforço,
E um olhar singelo e amoroso,
Aquele,
Que eu sempre quero dar.

Seguro tua mão escassa,
Diluída ao sabor do vento,
Que não refresca o meu intento,
De limpar teus lábios,
Com os meus já fadados,
De não falar em nada,
Sorrindo para ti,
Em um espelho, só espelho.

Percebo que já se foi,
Não sei que horas,
Contam meses,
Um dia, doe anos,
Mas não morreste para mim,
Diva uma sem destino.

Milagre mesmo,
Foi ter te contraído,
E expulsado pelo intimo,
Desejo de sofrer,
Mágoa ultrapassada,
Forjada,
Mas eu te amo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Menina

Faltou-me amor,
Para ler seus olhos,
Singelas flores,
Achadas no tumulto,
Da alcova de perdidos.

O que procura,
Menina da igreja?
Será que teus amigos,
Estes por aí,
Esqueceram de te conhecer?

Que Deus te proteja,
Menina da igreja,
Das setas diversas,
Infames feridas.

Se te incomoda essa dureza,
Deita sem remorso,
Nesse leito já fadado,
E descansa tua vida,
Um sossego de menina.

Esqueça a pujança,
Do vazio desse espaço,
Que tu vives bem feliz,
É um lago, longo lago.

Não te afogues,
Não te jogues,
Menina da igreja,
Deus te espera bem feliz,
Ao seu lado,
Um bem amado.

Vitor Vieira

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

poesia dadaísta de um dos mundos

A guerra que toma,
Devastação,
Na missão de paz,
A operação ocorre.

Oitocentos homens,
Que cercaram,
Ontem na guerra,
Uma aposentada.
Resistência.

Para onde centenas,
Ele foi atingido!
Das ruas,
Na rua.

E assustou,
Num tiroteio,
Revidaram,
O soldado.

A bordo de 30,
Atiraram,
Agora,
Cinco deles,
Uma menina,
Também foi.

Vitor Vieira

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

À tarde

Menino dorme,
Dorme no sol quente,
Pra ficar vivo,
E beijar mais, tente.

E esqueça-se da lida,
Deixada no mormaço,
Secando intermitente,
No varal já decadente.

Sonhe mais alto,
Tirando a roupa seca,
Grudada pelo corpo,
Suado e amargo sal.

Criando aquele antro,
Um tanto maternal,
Aquecido entre os braços,
Dos ramos do quintal.

Brinque com as sombras,
Criadas do apelo,
De menino do sol quente,
De menino já dormente.

Vitor Vieira

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mais uma vez

É mais uma noite em claro,
Que o sono vem torto,
E a noite impiedosa,
Sem calma, sonho, uma tortura.

Gotas de sangue meu,
Flutuam pelo ar a minha volta,
Raiva desescrupulada,
Que horas difíceis, meu Deus!

São anos a menos,
Nessas horas famintas,
São madeichas alvas,
Numa calvice antecipada.

Fico a pensar nas pessoas,
Que um dia estarei longe,
Velhos, vivas, alegres e indecisos,
Só por hoje, que pena, só por hoje.

Perdoem-me irmãos,
Pela falta de esperança,
Sei que um dia fui,
Um pouco mais criança.

Ah se assim fosse,
Ah se fosse assim.

Vitor Vieira

domingo, 12 de setembro de 2010

Entre borboletas e pedrinhas – 2ª parte

O palco está parcialmente às escuras. Um feixe de luz do lado direito do palco acompanha a menina. Ela anda sorrateiramente, como se estivesse tentando esconder-se de alguém. Subitamente, ela começa a dar unhadas no ar, com uma intensa ira. O garoto entra em cena observando-a, perplexo com a sua atitude. Aproxima-se dela.
Menino - O que você está fazendo?
Menina – Você não sabe? Estou brincando!
Menino – Não entendo.
Menina – Não? Estou com calor. Muito calor.
Menino – Eu posso ajudar?
Menina – Não. Mamãe me deu isto.
Tira um leque que estava escondido em sua roupa e começa a abanar-se.
Menino - O que é isso?
Menina – (com indiferença) O que mamãe me deu.
A menina anda alguns passos com um sorriso de contentamento. Depois olha para o garoto.
Menina – (desdenhosa) Você não está com calor?
Menino – Eu não preciso sentir calor. Estou em um lugar onde isso não existe. Se quiser, pode vir comigo. Aqui está tão bom...
A menina o observa com desconfiança e vai andando lentamente na direção dele. Ao chegar bem perto, o abraça. Ela larga-o e dá um grito de fúria.
Menina – Eu ainda estou com calor. Deixe de loucura! Aqui está fervendo.
Ela volta a abanar-se com violência.
Menino – Está com raiva?
Menina – (zombeteira) Eu não preciso sentir raiva.
Menino – (sorrindo) Eu também não!
Menina – (em tom de ameaça) mamãe me disse que todos sentem raiva. Então você sente também.
Menino – eu tenho amigos.
Menina – (gritando) Ah, é ? Eu também te...
Ela olha-o e fica em silêncio por alguns segundos.
Menina – (rindo maldosamente) Você também não tem! E você não pode desenhar amigos porque assim, eles seriam amigos imaginários e isso todo mundo tem!
Menino - Eu não preciso fazer isso, eu tenho amigos de verdade! Você também tem, eu já sei.
A menina alegra-se e entristece-se, começando então a chorar. O garoto comove-se com ela e a observa com pena.
Menino – Papai me disse que devo abraçá-la.
A menina o olha com o rosto úmido de lágrimas e ela própria pula nele, agarrando-o.
Menina – Eu quero ficar com você.
Menino – Você já na tem um lar?
Menina – (com inocência) eu quero sentir calor.
Menino – Então vamos.
Os dois caminham para o lado esquerdo do palco. No percurso o rosto da menina vai mudando. Ela sai contente, fica séria, aparenta tristeza e em seguida raiva. Ao chegar nesse ponto, volta todo o percurso. O garoto chega na extremidade e olha para trás, vendo que a garota não o acompanhou.
Menino – (gritando como se ela estivesse muito longe) Eu tenho que te mostrar as borboletas! Vamos atravesse!
A menina o olha, desgostosa.
Menina – Atravessar o quê?
Menino – Depressa!
Ela o olha com desconfiança e vai ao seu encontro. Após alguns passos, ela fica com medo. Olha para o chão como se ali houvesse um abismo.Dá mais alguns passos, trêmula, e cai.
Menino – Vamos! Rápido! Atravesse!
Enquanto ele a chama, o foco de luz vai enfraquecendo, até restar apenas o foco de luz sobre a menina. Ela está imobilizada. Ainda é possível ouvir os chamados do garoto. As luzes apagam e os chamados cessam.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Aquela mulher

Eram seus lábios,
De praça, de rua, de graça,
Em seu rosto,
Cansado, fachado e atado.

Onde cores mais vivas,
Brincavam em seu ósculo,
Como anjos aos seus pés,
Dois, mais um de viés.

Criados no gargalo da cerveja,
Esquecidos pela casa fria,
Que era sua,
Só sua.

Mas não estava cá,
Estava contigo,
Um carma vivo,
Focado a tu levar.

Em seus braços cruzados,
Amarrados a um de seus vícios,
Branco, quente e sujo,
Esparso pelo mundo.

Mundo constante,
Mundo infame,
Tu seguiria,
Mais uma vez, de volta.

Num eco mudo, surdo, louco,
Caco, fraco, opaco,
Leve, livre, lento,
Batom, batom, batom,
Tu usaria,
E seriam,
Seus lábios.

Vitor Vieira