domingo, 18 de outubro de 2009

Sorriso

Havia tido um dia causticante. Estava retornando a minha casa, mergulhado pelo crepúsculo urbano. Resesvava-me em um dos assentos da condução e ficava a observar o turvo das faces,que ali fora, aglutinadas, esperavam sua vez. Realmente gostava daquilo, o prazer que sentia em ficar ali, taciturno, banhado por aquela penumbra viscosa. Os outros passageiros talvez nem notassem meu êxtase mórbido. O sol manchado quase não me alcançava, meu corpo era dolorido e quente, mas sequer importava-me. Aquilo ia crescendo com os atritos da condução, já estava para adormecer. O tempo escorregava-me, os sons transpassavam-me e a vida ia chegando-se ao fim. Até que assombrado, vejo-me, quando naquela mesma viajem entra uma moça de cabelos desgrenhados. Ela estava descalça pés sujos de asfalto, canelas frágeis e acinzentadas, saia nos joelhos, surrada, camisa torpe e um nódulo no peito. Aquele era o seu problema aparente. A miséria vestia-a melhor do que a própria vestimenta: era louca. Percorreu todo o corredor com olhos de terror. Parou. Observou. Voltou para frente de todos. Porque fazia aquilo? Então, contrariando o desalento dos transeuntes, começou a citar palavras. Palavras modelo, palavras certas, palavras mudas, palavras tristes, palavras forçadas, palavras medrosas, só palavras. Pouco me importei sinceramente, até ali, sua história triste comovera-me somente entretera-me, apenas isso, não propus nem sequer com caridade ao seu apelo, afinal era louca, era devassa. Ficou ali. Ficou de pé. Não se sentou, mas agarrou-se a um auxílio. Mas... Algo descobri naquela mártir, algo surreal, falso talvez. Um sorriso. O sorriso de uma louca. Ela começara a divertir todos, com suas palavras estilhaçadas. Até mesmo com um homem envolvera-se em uma trama romântica indescritível. Rodou. Gritou. Dançou, até que... Sorriu. Sorriu. Sorriso largo, dentes grandes e bem feitos, guardados em uma boca de lábios delgados. Sorriso sincero dramático. Naquele instante fiquei estarrecido, ao propor surrealmente um osculo tachado. Não me continha. Sorriso elíseo, que toda amelancolia roubara-me sem piedade. Por fim, fechara-se novamente em loucura. Pra fora da condução a moça dirigiu-se e saiu. Foi-se. Para onde? O que seria dela? Lançada no mundo das vinganças. Era rotulada como corrompida. Não. Alegre partiu, mergulhada na decrépita luz, andou para a loucura. Correu para a escuridão, jogou-se no ermo, para que enfim, dormisse com a fome. Ah, o que seria dela, por favor, respondam-me. Só. Louca. Seu sorriso. Dali, fiquei em perene meditação, a observar a luz inconsciente da viagem. Sorria levemente, seria o início de uma perdição, será que havia me tornado insensato? Apenas existia algo a concluir: chegara em casa.
“O LEGITIMO POETA NÃO É AQUELE QUE PRECISA "IR À PARIS" PRA ESCREVER BEM. PARA ESTE, BASTA QUE OBSERVE OS PRÓPROS PÉS PARA NELES ENCONTRAR AS MAIS TERNAS POESIAS"

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