domingo, 12 de setembro de 2010

Entre borboletas e pedrinhas – 2ª parte

O palco está parcialmente às escuras. Um feixe de luz do lado direito do palco acompanha a menina. Ela anda sorrateiramente, como se estivesse tentando esconder-se de alguém. Subitamente, ela começa a dar unhadas no ar, com uma intensa ira. O garoto entra em cena observando-a, perplexo com a sua atitude. Aproxima-se dela.
Menino - O que você está fazendo?
Menina – Você não sabe? Estou brincando!
Menino – Não entendo.
Menina – Não? Estou com calor. Muito calor.
Menino – Eu posso ajudar?
Menina – Não. Mamãe me deu isto.
Tira um leque que estava escondido em sua roupa e começa a abanar-se.
Menino - O que é isso?
Menina – (com indiferença) O que mamãe me deu.
A menina anda alguns passos com um sorriso de contentamento. Depois olha para o garoto.
Menina – (desdenhosa) Você não está com calor?
Menino – Eu não preciso sentir calor. Estou em um lugar onde isso não existe. Se quiser, pode vir comigo. Aqui está tão bom...
A menina o observa com desconfiança e vai andando lentamente na direção dele. Ao chegar bem perto, o abraça. Ela larga-o e dá um grito de fúria.
Menina – Eu ainda estou com calor. Deixe de loucura! Aqui está fervendo.
Ela volta a abanar-se com violência.
Menino – Está com raiva?
Menina – (zombeteira) Eu não preciso sentir raiva.
Menino – (sorrindo) Eu também não!
Menina – (em tom de ameaça) mamãe me disse que todos sentem raiva. Então você sente também.
Menino – eu tenho amigos.
Menina – (gritando) Ah, é ? Eu também te...
Ela olha-o e fica em silêncio por alguns segundos.
Menina – (rindo maldosamente) Você também não tem! E você não pode desenhar amigos porque assim, eles seriam amigos imaginários e isso todo mundo tem!
Menino - Eu não preciso fazer isso, eu tenho amigos de verdade! Você também tem, eu já sei.
A menina alegra-se e entristece-se, começando então a chorar. O garoto comove-se com ela e a observa com pena.
Menino – Papai me disse que devo abraçá-la.
A menina o olha com o rosto úmido de lágrimas e ela própria pula nele, agarrando-o.
Menina – Eu quero ficar com você.
Menino – Você já na tem um lar?
Menina – (com inocência) eu quero sentir calor.
Menino – Então vamos.
Os dois caminham para o lado esquerdo do palco. No percurso o rosto da menina vai mudando. Ela sai contente, fica séria, aparenta tristeza e em seguida raiva. Ao chegar nesse ponto, volta todo o percurso. O garoto chega na extremidade e olha para trás, vendo que a garota não o acompanhou.
Menino – (gritando como se ela estivesse muito longe) Eu tenho que te mostrar as borboletas! Vamos atravesse!
A menina o olha, desgostosa.
Menina – Atravessar o quê?
Menino – Depressa!
Ela o olha com desconfiança e vai ao seu encontro. Após alguns passos, ela fica com medo. Olha para o chão como se ali houvesse um abismo.Dá mais alguns passos, trêmula, e cai.
Menino – Vamos! Rápido! Atravesse!
Enquanto ele a chama, o foco de luz vai enfraquecendo, até restar apenas o foco de luz sobre a menina. Ela está imobilizada. Ainda é possível ouvir os chamados do garoto. As luzes apagam e os chamados cessam.

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