domingo, 24 de abril de 2011

Entre borboletas e pedrinhas – cena final

(tudo escuro. Suavemente, um foco de luz surge mostrando o menino caminhando para o lado esquerdo do palco, naturalmente. Outro foco de luz surge mostrando a menina parada. Alguns segundos depois ela olha para o menino).
Menina – Você!
(O menino a olha, muda de direção e continua andando a esmo)
Menina – Já voltou? Como foi lá?
Menino – (com desinteresse) É. Foi.
Menina – Quando você vai de novo?
Menino – Não sei.
Menina – (sem jeito) Eu não consegui... Eu caí, você viu?
Menino - É. Eu vi.
Menina – Eu vou tentar de nova, tá?
(Ela olha e depois de alguns instantes anda em sua direção). A cor da luz muda enquanto ela anda com cuidado. Ela cai).
Menino – O que houve? Caiu de novo? Por que não levanta?
Menina – (com raiva) Você não entende? (fica de joelhos) Eu não posso!
Menino – Sua mãe te bateu?
Menina – Sim.
Menino – Você chorou?
Menina – Sim.
Menino – então porque não vem?
Menina – Já disse. Estou com muito calor!
Menino – Eu não tenho calor.
Menina – Onde você está?
Menino – Em um lugar bom.
Menina – Eu posso ir?
Menino – Venha.
(A garota levanta-se e vai caminhando na direção dele). Quando chega bem próxima, vai tocá-lo, tropeça e apoia-se nele. (Ele a segura, mas ela fica furiosa)
Menina – Não existe nenhuma ponte entre mim e você! Seu mentiroso! Agora não tenho mais calor, tenho frio! Muito frio!
Menino – (perplexo) Você quer um raio de sol?
Menina – (irritada) não, eu quero você!
Menino – Você quer uma maçã?
Menina – Não. ( empurra-o) Eu quero dormir. Já estou cansada! Não me perturbe mais!
(Ela afasta-se)
Menino – Você irá comigo.
(Ele vai até ela e pega-a a mão. Passam alguns instantes e os dois olham para as mãos juntas)
Menina – Você vai me levar?
Menino – Sim, nós vamos juntos. Meu pai nos trará um grande bolo. Você quer?
Menina – Você me dará o seu pedaço?
Menino – Se você quiser, eu o darei.
(Eles caminham. A menina para.)
Menina – Mamãe não me deixa ir.
Menino – Papai vai deixar.
Menina – eu vou pra casa.
Menino – Vamos sair daqui?
Menina – eu voe embora. (olha para o outro lado)
Menino – Você não deve ir agora.
Menina – Seu louco! Mamãe já me chamou!
Menino – Amanhã eu volto aqui.
Menina – Você volta?
Menino – Não.
Menina – Por quê?
Menino – Eu vou embora.
Menina – Eu vou com você.
Menino – Não.
Menina – (gritando com raiva) Quem você pensa que é? Mamãe vai comigo!
Menino – (já saindo de cena) Adeus!
Menina – posso ir com você?
Menino – Se você conseguir de desenhar borboletas no ar, você pode.
(A menina olha suas mãos e começa a chorar)

FIM

Violão

Agradeceu ao Patrício e partiu com o pesado saco de batatas nas costas. Eram onze horas da manhã de domingo e a feira estava já quase no fim. Alguns mascates recolhiam sua mercadoria para o intervalo do almoço. Cristóvão passava entre os comerciantes, andando a passos ritmados, com o fardo de batatas. A face estava crispada devido à intensa luz do sol, a blusa de algodão aberta até a metade, molhada de suor. Usava uma calça fole também de algodão e sandálias alpargatas, sujas de terra. Sua figura formava um tipo humano grotesco, que incandescia ao sol do sertão nordestino.
Quando passava em frente a uma bodega, um dos homens ali sentados chamaram-no.
- Ei. Rapaz! Ei, Tovim! Vem cá vem!
Ele foi. Chegou do portal, largou o saco entre as pernas, e enxugou o suor da testa.
- Como é que tu tá, macho? Eita tá suado! Senta aí e bebe uma com a gente!
- Ô seu Marcelo, num carece não. Brigado, mas eu tenho de ir mim embora logo. O seu Mundico disse que precisa dessas batatas logo. Ele disse que tavam procurando muita batata por lá e já tinha acabado tudo. Aí ele me mandô vir comprar aqui na feira.
- Sim, sim o seu Mundico. Como é que ele tá?
- Tá bom.
- Hum. Num quer mesmo não? Perguntou seu Marcelo, levantando um copo cheio de aguardente.
- Num quero não.
Cristóvão pegou o asco novamente sobre o ombro. Virou-se e sem esperar, estouraram gargalhadas. Os homens riam. Ele olhou para seu Marcelo.
- Que diabos é isso homem? Perguntou seu Marcelo, lambuzando-se de cachaça.
- Tu te borraste todo, foi? Tá todo sujo aí atrás.
Novamente estouraram gargalhadas escandalosas.
Cristovão saiu do bar quase correndo, derrubou algumas batatas e recolheu-as impaciente.
- Mas que diacho de vida! Que troço foi esse?
A vergonha toma-lhe o controle e transforma-se em cólera. Caminhou até o ponto de ônibus onde havia apenas um jovem branco sentado em um banco. Cristóvão fitou-o e não o reconheceu. Aprumou o saco entre as pernas, tal como fez no bar. Observou o horizonte fumegante que iria percorrer a pé, porque não iria de ônibus, “mas que diacho”, respirou fundo, recolheu o saco e recolocou-o sobre o ombro e partiu. O jovem sentado observou-o deixar a parada castigada pelo o sol. Deu um sorrisinho cretino.
- Idiota!
Chegou uma da tarde na casa de seu Mundico. Cruzou o quintal afugentando as galinhas. Preto, o cachorro vira-lata latiu quando o avistou. Cristóvão notou uma agitação dentro da casa. Era seu Mundico. Largou o fardo sobre o alpendre e apoiou-se numa coluna. Deu longo sorriso.
- Mas que maçada foi essa hein Cristóvão? Já é quase duas, que é que tu tava fazendo?
Seu Mundico foi até o saco de batatas e espiou algumas delas.
- Desgraça! Gritou seu Mundico, furioso. Entrou em casa.
Dona Maria apareceu assustada com a algazarra do homem.
- Que foi Cristóvão? Que foi?
- Não, dona Maria, nada não.
A mulher olhou para ele e para o saco esfolado em cima do alpendre.
- Vixe! Balançou negativamente a cabeça e olhou para Cristóvão.
- Vai tomar um banho, vai.
Banhou-se, vestiu uma roupa limpa e foi para a cozinha almoçar. Um prato já o esperava por ele em cima do balcão, Dona Maria preparava um café no fogão. Ele sentou-se e começou a comer.
- Que foi que houve Cristóvão?
- Nem eu sei dona Mariinha, nem eu sei...
Seu Mundico entrou na cozinha. Parou no balcão, olhou para Cristóvão, que retribuiu assustado, e saiu. Voltou cinco minutos depois contando algumas cédulas de dinheiro na mão. Parou no mesmo lugar de antes. Olhando para o dinheiro, disse:
- Pega!
Cristóvão olhou desconfiado.
- PEGA! Disse novamente, ríspido.
Cristóvão aceitou o dinheiro. Seu Mundico guardou o restante no bolso e foi embora. Depois de um tempo o rapaz falou:
- Agora eu tenho o que tava faltando.
- É o que hein? Perguntou a senhora pouco interessada.
- Não, é que agora eu tenho o tanto que preciso pra comprar.
- Comprar o que, menino?
- Comprar meu violão.
A mulher olhou-o de soslaio e deu um sorrisinho.
- E tu queres é isso é?
- É que eu gosto!
- E tu sabes tocar?
- Não ainda não. Mas eu aprendo. Só que pra isso eu preciso ter né? Eu tô juntando dinheiro desde que o seu Mundico começou a me pagar pelos serviços. Faz tempo que eu queria um. Eu lembro que o meu pai tinha um, e ele tocava pra mim e pra mamãe. Era tão bonito.
Voltou a comer. Dona Maria olhava-o. Uma lágrima ficara presa e foi aos poucos se desprendendo. “Oh meu Deus. Já faz 28 anos. Ele sofreu tanto, tomara que consiga esse violão, ele merece.”
- Eu vou pedir pro seu Mundico comprar. O seu Tété da dona Carminha tem um. Ele me mostro uma vez, faz tempo, e ele disse que se eu quisesse, ele me vendia.
- Ah tá certo. Disse dona Maria.
A noite foi longa para Cristóvão, a expectativa dele faiscava pelos olhos.
- Até que enfim! Eu vou tê meu violão.
Dormiu sorrindo.
No dia seguinte, Cristóvão segurava um pequeno embrulho com dinheiro. Estava sentado no alpendre da casa, movimentava o pé excitado. Nem tinha tomado banho, tamanha era sua impaciência. Esperou a saída do padrinho. Quando seu Mundico saía da casa, Cristóvão o abordou:
- Padrinho...
- Diz.
- O sinhô pode fazer um negócio pra mim?
- O que é que tu queres?
- Eu queria que o sinhô fosse até o seu Tété do açougue...
- Sim, eu sei quem é. Que tem?
- Ele tem um violão, e eu queria que o sinhô comprasse pra mim.
Disse-lhe estendendo o pacote de dinheiro.
- Eu juntei.
- Tá bom.
Foi embora.
O dia passou. Eram 6 horas da tardinha. O carro parou fazendo barulho. Preto ladrou assustado. Cristóvão estava sentado a mesa com dona Maria na cozinha. Parou o que estava fazendo quando percebeu a chegada do padrinho. Correu para a sala. Seu Mundico chegara embriagado e estava caído no sofá.
- Tá no carro é seu Mundico?
- Tá o quê, menino? Vai fazer garapa pra mim, vai!
Não disse palavra. Voltou para a cozinha como um espírito. Dona Maria que antes sorria, ficou pálida.
- Vai terminar de cortar as batatas não, Cristóvão?
- Vô Mariinha. Mas eu vô cortar é na sala, vô cortar na sala.
E foi.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Amiga

Amiga,
Escuta-me,
E fala ao meu ouvido,
Sentindo o mel amante,
Que destilo em teu seio,
Acovardado,
Mas meu todo meu.

Espero que não esqueça,
Que hoje sou,
Um verdadeiro amor,
Daqueles de criança,
Um beijo sem esforço,
E um olhar singelo e amoroso,
Aquele,
Que eu sempre quero dar.

Seguro tua mão escassa,
Diluída ao sabor do vento,
Que não refresca o meu intento,
De limpar teus lábios,
Com os meus já fadados,
De não falar em nada,
Sorrindo para ti,
Em um espelho, só espelho.

Percebo que já se foi,
Não sei que horas,
Contam meses,
Um dia, doe anos,
Mas não morreste para mim,
Diva uma sem destino.

Milagre mesmo,
Foi ter te contraído,
E expulsado pelo intimo,
Desejo de sofrer,
Mágoa ultrapassada,
Forjada,
Mas eu te amo.