Agradeceu ao Patrício e partiu com o pesado saco de batatas nas costas. Eram onze horas da manhã de domingo e a feira estava já quase no fim. Alguns mascates recolhiam sua mercadoria para o intervalo do almoço. Cristóvão passava entre os comerciantes, andando a passos ritmados, com o fardo de batatas. A face estava crispada devido à intensa luz do sol, a blusa de algodão aberta até a metade, molhada de suor. Usava uma calça fole também de algodão e sandálias alpargatas, sujas de terra. Sua figura formava um tipo humano grotesco, que incandescia ao sol do sertão nordestino.
Quando passava em frente a uma bodega, um dos homens ali sentados chamaram-no.
- Ei. Rapaz! Ei, Tovim! Vem cá vem!
Ele foi. Chegou do portal, largou o saco entre as pernas, e enxugou o suor da testa.
- Como é que tu tá, macho? Eita tá suado! Senta aí e bebe uma com a gente!
- Ô seu Marcelo, num carece não. Brigado, mas eu tenho de ir mim embora logo. O seu Mundico disse que precisa dessas batatas logo. Ele disse que tavam procurando muita batata por lá e já tinha acabado tudo. Aí ele me mandô vir comprar aqui na feira.
- Sim, sim o seu Mundico. Como é que ele tá?
- Tá bom.
- Hum. Num quer mesmo não? Perguntou seu Marcelo, levantando um copo cheio de aguardente.
- Num quero não.
Cristóvão pegou o asco novamente sobre o ombro. Virou-se e sem esperar, estouraram gargalhadas. Os homens riam. Ele olhou para seu Marcelo.
- Que diabos é isso homem? Perguntou seu Marcelo, lambuzando-se de cachaça.
- Tu te borraste todo, foi? Tá todo sujo aí atrás.
Novamente estouraram gargalhadas escandalosas.
Cristovão saiu do bar quase correndo, derrubou algumas batatas e recolheu-as impaciente.
- Mas que diacho de vida! Que troço foi esse?
A vergonha toma-lhe o controle e transforma-se em cólera. Caminhou até o ponto de ônibus onde havia apenas um jovem branco sentado em um banco. Cristóvão fitou-o e não o reconheceu. Aprumou o saco entre as pernas, tal como fez no bar. Observou o horizonte fumegante que iria percorrer a pé, porque não iria de ônibus, “mas que diacho”, respirou fundo, recolheu o saco e recolocou-o sobre o ombro e partiu. O jovem sentado observou-o deixar a parada castigada pelo o sol. Deu um sorrisinho cretino.
- Idiota!
Chegou uma da tarde na casa de seu Mundico. Cruzou o quintal afugentando as galinhas. Preto, o cachorro vira-lata latiu quando o avistou. Cristóvão notou uma agitação dentro da casa. Era seu Mundico. Largou o fardo sobre o alpendre e apoiou-se numa coluna. Deu longo sorriso.
- Mas que maçada foi essa hein Cristóvão? Já é quase duas, que é que tu tava fazendo?
Seu Mundico foi até o saco de batatas e espiou algumas delas.
- Desgraça! Gritou seu Mundico, furioso. Entrou em casa.
Dona Maria apareceu assustada com a algazarra do homem.
- Que foi Cristóvão? Que foi?
- Não, dona Maria, nada não.
A mulher olhou para ele e para o saco esfolado em cima do alpendre.
- Vixe! Balançou negativamente a cabeça e olhou para Cristóvão.
- Vai tomar um banho, vai.
Banhou-se, vestiu uma roupa limpa e foi para a cozinha almoçar. Um prato já o esperava por ele em cima do balcão, Dona Maria preparava um café no fogão. Ele sentou-se e começou a comer.
- Que foi que houve Cristóvão?
- Nem eu sei dona Mariinha, nem eu sei...
Seu Mundico entrou na cozinha. Parou no balcão, olhou para Cristóvão, que retribuiu assustado, e saiu. Voltou cinco minutos depois contando algumas cédulas de dinheiro na mão. Parou no mesmo lugar de antes. Olhando para o dinheiro, disse:
- Pega!
Cristóvão olhou desconfiado.
- PEGA! Disse novamente, ríspido.
Cristóvão aceitou o dinheiro. Seu Mundico guardou o restante no bolso e foi embora. Depois de um tempo o rapaz falou:
- Agora eu tenho o que tava faltando.
- É o que hein? Perguntou a senhora pouco interessada.
- Não, é que agora eu tenho o tanto que preciso pra comprar.
- Comprar o que, menino?
- Comprar meu violão.
A mulher olhou-o de soslaio e deu um sorrisinho.
- E tu queres é isso é?
- É que eu gosto!
- E tu sabes tocar?
- Não ainda não. Mas eu aprendo. Só que pra isso eu preciso ter né? Eu tô juntando dinheiro desde que o seu Mundico começou a me pagar pelos serviços. Faz tempo que eu queria um. Eu lembro que o meu pai tinha um, e ele tocava pra mim e pra mamãe. Era tão bonito.
Voltou a comer. Dona Maria olhava-o. Uma lágrima ficara presa e foi aos poucos se desprendendo. “Oh meu Deus. Já faz 28 anos. Ele sofreu tanto, tomara que consiga esse violão, ele merece.”
- Eu vou pedir pro seu Mundico comprar. O seu Tété da dona Carminha tem um. Ele me mostro uma vez, faz tempo, e ele disse que se eu quisesse, ele me vendia.
- Ah tá certo. Disse dona Maria.
A noite foi longa para Cristóvão, a expectativa dele faiscava pelos olhos.
- Até que enfim! Eu vou tê meu violão.
Dormiu sorrindo.
No dia seguinte, Cristóvão segurava um pequeno embrulho com dinheiro. Estava sentado no alpendre da casa, movimentava o pé excitado. Nem tinha tomado banho, tamanha era sua impaciência. Esperou a saída do padrinho. Quando seu Mundico saía da casa, Cristóvão o abordou:
- Padrinho...
- Diz.
- O sinhô pode fazer um negócio pra mim?
- O que é que tu queres?
- Eu queria que o sinhô fosse até o seu Tété do açougue...
- Sim, eu sei quem é. Que tem?
- Ele tem um violão, e eu queria que o sinhô comprasse pra mim.
Disse-lhe estendendo o pacote de dinheiro.
- Eu juntei.
- Tá bom.
Foi embora.
O dia passou. Eram 6 horas da tardinha. O carro parou fazendo barulho. Preto ladrou assustado. Cristóvão estava sentado a mesa com dona Maria na cozinha. Parou o que estava fazendo quando percebeu a chegada do padrinho. Correu para a sala. Seu Mundico chegara embriagado e estava caído no sofá.
- Tá no carro é seu Mundico?
- Tá o quê, menino? Vai fazer garapa pra mim, vai!
Não disse palavra. Voltou para a cozinha como um espírito. Dona Maria que antes sorria, ficou pálida.
- Vai terminar de cortar as batatas não, Cristóvão?
- Vô Mariinha. Mas eu vô cortar é na sala, vô cortar na sala.
E foi.
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